A ausência de democracia e o empoderamento das mulheres

Enio Verri

A sociedade brasileira vive um caso esquizofrênico de amor e ódio com mulheres. Ora sacraliza e romantiza, ora mata, esquarteja e dá para cachorros comerem. Na infância, a inclusão do sacrossanto nome mãe em alguma contenda pela bolinha de gude, era falta gravíssima no código moral das crianças, passível de enfrentamento físico. Da fase púbere em diante, a mulher brasileira roga, diariamente, pela sorte de não ser uma das estupradas, a cada 11 minutos.

O mês destinado a jogar ainda mais luzes sobre as condições de ser mulher, no Brasil, expõe um cenário dantesco num país que ainda se permite viver sob um golpe de Estado. Nas programações organizadas pelas mais diversas frentes de luta pela dignidade de ser mulher, para marcar o dia 08 de março, o principal assunto é a violência. As leis de uma nação em lenta e desigual construção social foram suprimidas e as poucas conquistas feministas se deram sob a democracia.

Uma das ferramentas de desconstrução da secular condição de passível a todo e qualquer molestamento, está a do empoderamento da mulher. É lastimável para uma sociedade que se pretenda democrática e desenvolvida social, econômica e tecnologicamente, que essas políticas ainda se restrinjam ao empoderamento para a autodefesa física e emocional contra o assédio e a violência.

Há algo de muito errado com uma sociedade na qual, em 2014, foram assassinadas cerca de cinco mil mulheres. Do total de homicídios, 62% eram pretas ou pardas. Vítimas de 350 anos de uma escravidão mal resolvida e mal contada, elas fazem parte de um contingente de pobres e miseráveis, condições especialmente cruéis para as mulheres, no mais das vezes, incumbidas de prover a família.

A foto da posse não deixa dúvidas quanto ao caráter machista do grupo golpista. Temer reduziu um ministério a uma secretaria sem autonomia. Os ainda frágeis instrumentos de empoderamento e proteção ao gênero feminino, criados durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), foram suprimidos. Sem instituições fortes, onde sejam produzidas políticas públicas de acesso a condições dignas de vida, a violência contra as mulheres não vai diminuir.

Um levantamento de dados socioeconômicos latino-americanos, feito por uma ONG dos EUA, aponta o Brasil como o pior lugar da América Latina para uma menina viver. As disparidades de oportunidades de desenvolvimento pesam sobremaneira sobre as meninas. Não é de se espantar mães de família, ou empregadas condenadas a não estudar, antes dos 14 anos. Essa normalidade medieval não será alterada por um governo sem legitimidade democrática.

A brutalidade contra as mulheres revela uma sociedade hipócrita e covarde. Sacraliza e romanceia a mulher, no discurso, mas a trucida e mata, na prática. Ao invés de políticas públicas de empoderamento para a ocupação dos espaços políticos e profissionais, em postos de mando e de deliberação, com a devida e óbvia isonomia aos ganhos dos homens, estamos ainda na fase de manter as mulheres vivas, sem hematomas e lesões.

Sob um governo autoritário, num País sem leis, estamos cada vez mais distantes de comemorar um 08 de março em que sejam promovidas reflexões sobre os avanços na valorização dos direitos das cidadãs e a plena inserção delas numa sociedade em que não sejam sacralizadas e nem idealizadas, mas respeitadas e valorizadas.