Como controlar o senso crítico

Enio Verri

Entre outas frases atribuídas ao jornalista americano, Glenn Greenwald, há uma que expõe não apenas as vísceras do golpe, mas também a dimensão da alienação da nação, mantida sob absoluto controle por uma minoria proprietária da maior parte dos veículos de comunicação. Greenwald pergunta, “Como é possível não perceber que o objetivo da elite brasileira, com o impeachment da Dilma, é proteger os verdadeiros ladrões”.

As vísceras estão aí, como disse um inesquecível frasista de Roraima, o senador Romero Jucá: um acordão, com o Supremo Tribunal Federal, com as forças armadas, com tudo. Ele também disse que alguns ministros, “os caras” e a imprensa queriam tirar “ela”, porque não era possível barrar processos no STF com Dilma na Presidência. Depor uma presidenta, democraticamente eleita, por falta de apoio popular e no Congresso, tem nome: golpe.

Contra a camarilha que se adonou do Estado, a serviço da elite mais brejeira, truculenta e cafona do planeta, há todo tipo de escandalosas provas materiais. A crise chegou a tal ponto, que nem a imprensa controlada pelo mercado financeiro e interessada no golpe, consegue esconder a putrefação. Constrangida, noticia a decomposição do governo, sempre ressaltando a importância de manter as reformas que tornarão a vida dos trabalhadores brasileiros ainda mais precária.

À elite não interessa quem esteja no comando. A manutenção de seus privilégios está acima de todas as coisas. Não pagar impostos, não dividir lugar com pobre, não admitir ascensão social e não permitir ao Brasil se afirmar como nação soberana, industrializada, social, política, econômica e tecnologicamente avançada. Essa elite sabuja se satisfaz em fornecer matéria prima para o desenvolvimento de nações que se respeitam. Para estabelecer as condições, usa de uma poderosa máquina de alienação, chamada mídia.

O senso crítico de uma nação despolitizada é controlado com informação manipulada, fragmentada e passada de forma incompreensível à maioria da população brasileira. A ONG Repórter Brasil observou a cobertura da imprensa à reforma da Previdência. Os dados são estarrecedores, tamanha a virulência do embrutecimento da opinião pública. Entre 21 de novembro a 20 de dezembro de 2016, foram analisados mais de 400 textos dos maiores jornais e 45 minutos dos principais telejornais.

O alinhamento é escandaloso Mais de 90% do tempo da TV Globo e 90% dos textos do jornal “O Globo” foram favoráveis à reforma. Nos jornais, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, 87% e 83% dos seus textos se fizeram de porta vozes do desmonte da Previdência. O telejornal da Record foi o que menos atenção dedicou à proposta de miserabilização de mais de 80% da população, notadamente a mais pobre. Apenas 62% de seu tempo.

A imprensa é uma agência de propaganda da reforma da Previdência. Das pessoas ouvidas pelos telejornais, Nacional e da Record, e pelos jornais, Estadão, O Globo e Folha, 83%, 71%, 73%, 72% e 70%, respectivamente, foram favoráveis a uma reforma que impõe o fim da aposentadoria para a maioria da população. Quem vive do trabalho braçal, dificilmente conseguirá se aposentar entre 65 e 70 anos de idade.

Tanto nas centenas de textos quanto nos intermináveis minutos em defesa da reforma, o tom do discurso é catastrófico. Expressões, como: “a previdência está quebrada”, “mal necessário”, “garantia do futuro”, fertilizaram os argumentos da opinião pública. O resultado da maciça propaganda está nos 44%, 18% e 15% dos leitores da Folha, do Estadão e do O Globo que são favoráveis à reforma que vai cortar em 50% de um salário mínimo das pensões por morte e das aposentadorias por invalidez.

O maior inimigo da sociedade brasileira é a sua elite, que usa de seu poder econômico para comprar veículos de comunicação e parlamentares para perpetuar uma das mais indecentes desigualdades sociais do planeta. Mente ao afirmar que a Previdência está quebrada, quando é sabido que ela é superavitária. Culpa os assalariados de um suposto déficit e esconde a sua bilionária dívida com a Previdência, além dos impostos que não paga sobre suas propriedades.

A despolitização da nação é o resultado do secular comportamento dessa elite, de manter a população bestializada, enquanto se apossa não apenas dos meios de produção, mas do funcionamento do Estado. Partidos políticos, sindicatos e os vários movimentos sociais comprometidos com a base social estão com a hercúlea tarefa de desconstruir essa alienação programada para só dizer sim, sim, sim.