A crise é política, ministro

Enio Verri

Alguém já deve ter dito que o governo Temer é a orquestra do Titanic, que se executava enquanto o navio naufragava. A caótica conjuntura política, causada pelo golpe, de 2016, deixou em estado comatoso a economia. Temer é insustentável para a viabilidade do projeto econômico pretendido pelo grupo que se engalfinha pelo poder. Sem condições de aprovar as reformas, o governo derrete e sangra a economia.

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou que a crise do governo não é política. Mas também não informou de que tipo é. Nove entre 10 analistas políticos apostam que a crise provocada e sofrida pelo próprio Temer, é política, e isso é deletério para a economia. Ele ainda não caiu porque o PSDB não quer dar motivo para ser chamado de golpista. Fora do governo, Temer e parte de seus asseclas perdem o foro privilegiado.

O ministro tenta apenas defender o moribundo ministério de notáveis de Temer. A agonia, porém, assevera a crise econômica. A conjuntura política recolhe os investidores nativos e afugenta os estrangeiros. Hoje, o Ibovespa abriu em queda, abaixo dos 64 mil pontos. Estrangeiros não tem confiança num país em que Executivo e Legislativo estão atolados num lamaçal de corrupção e, pior, com o Judiciário em silêncio.

A única classe que lucra com a crise é a que a financia, os rentistas, os bancos. A imprensa interessada no golpe anuncia que o governo, em abril, obteve um superávit de R$ 12,9 bilhões. Mentira, pois, considerando as despesas com juros, o déficit foi de R$ 15,4 bilhões. Além disso, cerca de um bilhão por dia, num período de um mês, foi transferido para banqueiros. Em um ano, 6,7% do PIB foram transferidos para rentistas.

A crise política não é apenas do Temer, mas do seu grupo como um todo. A mando do mercado financeiro, pretende levar adiante as reformas da Previdência, a trabalhista e a entrega das empresas e das ricas terras brasileiras a interesses internacionais. Há, pelo menos, 170 parlamentares comprometidos com financiadores de campanha envolvidos em esquemas de corrupção, e muito interessados nas questões acima.

O próprio presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o primeiro na linha sucessória, em caso de renúncia de Temer, é acusado de corrupção. A empreiteira OAS o acusa de receber propina em troca uma emenda numa MP que favoreceria a empresa. Já a Odebrecht o acusa ele, o pai, César Maia, de receberem R$ 950 mil não declarados.
Não há nomes e os estertores políticos de Temer arrastam o País ao caos econômico. O resultado dessa conjuntura pode ser observado nas projeções do Banco Central, de segunda-feira (29), segundo as quais haverá aumento da inflação e a retração do PIB.

O fim da crise econômica está atrelado ao fim da crise política. O processo passa, necessariamente, pela destituição imediata do governo Temer, a convocação de eleições gerais diretas e de uma constituinte cidadã, com a participação de todos os movimentos sociais, tanto do campo quanto da cidade. Somente assim para o País voltar a produzir, criar empregos e gerar consumo. Diretas já.