De volta à miséria

Em 2012, nove anos de governos do Partido dos Trabalhadores (PT) tiraram o Brasil do Mapa da Fome monitorado pela ONU, desde 1990. Esse secular flagelo brasileiro já havia sido denunciado, desde Euclides da Cunha, passando por Lima Barreto, até o médico Josué de Castro, quem mais profundamente mapeou a fome no Brasil. Herança de uma abolição para inglês ver e a instauração de uma República por meio de um golpe de Estado, o primeiro da nossa história. Trata-se de um traço atávico do caráter da elite brasileira. Terras e pessoas lhes pertencem unicamente para lhes servirem.

Ao longo de quase uma década, Lula provou que era possível tirar o Brasil das malditas garras da fome. Foram cerca de 40 milhões de brasileira/os que passaram a fazer pelo menos três refeições por dia. De cada R$ 1,00 investido no programa Bolsa Família, R$ 1,78 volta para a composição do PIB. Uma prova de que é muito mais barato investir no desenvolvimento do que no retrocesso. Foram vários tipos de investimentos que os governos do PT fizeram em quem produz as riquezas do País, como a aquisição de alimentos da agricultura familiar, ou o Programa Minha Casa Minha Vida.

Um avanço civilizatório alcançado por um conjunto de políticas aplicadas pelo PT e que transformou positivamente a realidade social de milhões de brasileira/os, agora está sendo massacrado pela camarilha facínora, que mata crianças antes de completarem cinco anos. O profundo corte de investimentos do Estado em seu desenvolvimento está aumentando o que vinha sendo arduamente combatido pelos governos do PT, a pobreza. Esse é o preço de se submeter ao mercado financeiro. De 2016 para 2017, aumentou em 11% a taxa de mortalidade infantil entre crianças de um mês até quatro anos de idade.

Para não deixar dúvidas de que se trata de uma avassaladora volta da pobreza, morrem menos crianças enquanto estão internadas, sob os cuidados do Estado. Depois de liberadas para imergirem diretamente nas condições insalubres da pobreza, crianças profundamente carentes de alimentação minimamente adequada, adquirem uma série de moléstias que as deixarão fora do ranking da meritocracia. Segundo os pesquisadores, apesar de ainda não disponíveis, os índices de 2017 devem ser piores.

No Brasil do final do século 20 morriam de fome 300 pessoas por dia. O dado do melancólico ocaso do governo de Fernando Henrique Cardoso é criminoso, levando em conta que este País possui mais de 150 milhões de hectares agricultáveis. Porém, para a elite mais atrasada e truculenta do mundo, meios de produção são problemas a mais para ela esconder a sua pusilanimidade, que a faz entregar todo o País, de porteira fechada, viver de renda e nunca ter de produzir.

Essa gente não se sente brasileira/o. A elite não tem relação de afetividade com a nação. Oriunda da casa-grande, nunca fez a terra produzir e se manteve convenientemente distante de quem produzia a riqueza, a senzala. Os estudos foram na Europa, a quem submeteu-se como seu alter ego. Segundo a provinciana mentalidade da elite dirigente do País, o Brasil é uma colônia que deve se colocar no seu lugar de provedora de bens e de serviços a nações centro de poder.

Os governos que ousaram, em maior ou menor grau, apresentar um projeto desenvolvimentista e com um mínimo de justiça na divisão das riquezas potenciais e produzidas foram, um a um e a seu modo, destituídos. Suicídio, exílio, assassinato, impeachment e prisão é a sequência do destino de todos que tiveram a petulância de enfrentar o atraso perpetrado e perpetuado por não mais que 15% da população. No momento em que o País volta a passos largos para os tempos de miséria, o maior líder nacional, quem pode reverter essa aviltante conjuntura, está injustamente preso.

Essa condição de miserabilidade deveria ser indignante a todas as pessoas e não apenas às que estão ligadas a alguma tendência ideológica e partidária. Não se vê manifestação da FIESP contra esse dado, que fere de morte, segundo os interesses empresariais de ganho, a qualidade produtiva do operário de amanhã. Mas não há e não haverá essa indignação por parte dessa gente. Para a sociedade escravocrata, os operários não passam de ferramentas descartáveis. A condição abjeta do País não importa à elite porque ela não faz parte das estatísticas de morte por fome.

Esse e outros retrocessos civilizatórios serão barrados somente com uma torrencial ocupação das ruas, a ponto de paralisar todo o País. Fora desse espaço, o número de crianças mortas por desnutrição vai aumentar. Assim como os 200 mil camelôs empurrados pelo desemprego vão se multiplicar. A inação diante do dado faz parecer que é infinita a tolerância do brasileiro à indignação. Trata-se do futuro da nação, que foi cuidado e protegido, entre 2003 e 2015, e agora é exterminado.