Escolha a sua política

Enio Verri

É preciso defender firmemente a existência dos partidos políticos. Seria um retrocesso milenar prescindir dessa fundamental instituição para a organização da luta de classes. É impossível pensar numa democracia cujo protagonismo político pessoal sobressaia ao programa criado pelo conjunto de pessoas que formam um partido. Apesar da lamacenta conjuntura política, renunciar ao debate é abrir mão da construção de uma nação democrática e minimamente justa.

O momento histórico tem um efeito pedagógico. Fomos todos tangidos ao debate. É fundamental e urgente desconstruir a imagem negativa da política. A não participação política é uma posição política, pois não existe ser humano que não seja político. Negar a política não faz de ninguém um não político. São falsos os que se elegem se dizendo não políticos. Essa é a política que eles usam para se eleger.

Uma política muito em voga, pela Operação Lava Jato e a imprensa interessada no golpe, é dizer que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva politizam a Operação. O que é, senão uma política, manter-se preso aos holofotes da imprensa para sustentar a uma investigação que, de resto, já se provou uma perseguição política?

O nível de abjeção a que chegou a representatividade política não justifica virar as costas para essa condição absolutamente humana, que é a do ser político. É fundamental enfrentar esse debate com coragem e afeto para conquistar mentes e corações. A política brasileira se encontra nessa fossa devido justamente ao distanciamento entre população e política. Parte da culpa é dos próprios parlamentares cuja maioria sempre preferiu a patuleia longe das decisões sobre os destinos da nação. A despolitização da população é uma política fundamental para manter o estado de coisas.

Em cada capítulo do golpe de 2016, seus atores digladiam pela narrativa dos fatos, sob todas as formas de se fazer política. Desde a partidária-parlamentar, à de rua, passando pela sindical, a de esgoto, a jurídica, a midiática, etc. Durante o processo, se desvela as entranhas sordidamente injustas das condições que se impõem a cada lado do campo do enfrentamento pela ocupação do espaço político. Desde a popularização da internet, a politização geral não seria quase impossível graças à concentração midiática à serviço de uma das mais cafonas e brutais elites do mundo.

Nossa atual conjuntura escancara a premente necessidade de defender não apenas a manutenção, mas o aumento da carga horária das disciplinas de História, Sociologia e Filosofia e a inclusão delas desde a alfabetização. Negar o debate sobre a luta de classes num país agrário, com 350 anos de escravidão e atuais 60 mil homicídios por ano, cujos 77% são de negros, jovens e pobres, é crime de lesa-pátria. Somente por meio do debate a política da paz prospera. Fora disso, o holocausto continuará a acontecer com a carne da população periférica.

O Movimento Escola Sem Partido faz a política de calar o debate que, inevitavelmente, cabe à Sociologia tratar dos fatos históricos que identificam a brutal exclusão promovida pela elite brasileira. O movimento nega essa dívida histórica com os africanos escravizados e mantidos na subalternidade da construção social brasileira.

Criticam cotas, usadas em qualquer país civilizado, e pregam o protagonismo pessoal num país onde os negros têm IDH que os brancos tinham em 2000 e ganham o que os brancos ganhavam em 2010. Isso também é uma política. Portanto, nunca negue ser um político, apenas assuma os prazeres e as dores da política que escolher praticar.