Leilão do pré-sal pode dar R$ 1 trilhão em prejuízo ao Brasil

Enio Verri

Atordoantes são o silêncio e a inação diante da destruição da soberania nacional, sem que as ruas já não estivessem ocupadas por uma inarredável desobediência civil. Para retirar o óleo e a soberania do Iraque, um país sem infraestruturas básicas, mas, à época, o segundo maior produtor de petróleo do mundo, os EUA invadiram com armas, sob o pretexto de ali haver produção de ogivas nucleares. Para retirar o óleo e a soberania do Brasil, os EUA são comparsas do golpe parlamentar, jurídico e midiático, de 2016, que retirou da Presidência uma mulher honesta e eleita pelo voto direto.

Houvesse consciência do valor da soberania, a instalação da camarilha Temer no Palácio do Planalto não seria tão simples, como está sendo. As riquezas e as empresas nacionais não seriam entregues tão facilmente, sem uma pronta reação da população contra um governo cujas medidas são no sentido de escravizar a população e tornar a nação uma eterna recordista mundial de produção de bens primários, que serão utilizados para enriquecer a indústria e avançar o desenvolvimento de outras nações, de outros povos. É como se os brasileiros não merecessem tudo que têm e tudo que criaram, ao longo de séculos, com suor e sangue da/os trabalhadora/es.

A nação não reagiu, ainda em 2016, quando Temer e PSDB retiraram da Petrobras a condição de operadora exclusiva do pré-sal e voltaram ao modelo de concessão, criado por Fenando Henrique Cardoso, abrindo uma de nossas mais estratégicas fontes de energia à vontade do capital internacional. No discurso, o pré-sal não é rentável. Na prática, é disputado, palmo a palmo, por seis das maiores petroleiras do mundo. Entre elas, a Petrobras, colocada em desvantagem por Pedro Parente e Temer, quando tem condições humanas, tecnológicas e de capital para decidir sobre como melhor aplicar sua fonte de energia para o desenvolvimento da nação.

Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) não apenas descobriram o pré-sal, como também o protegeram para ser investido a bem do Brasil. Pelo modelo de concessão, as empresas ficam com o óleo e deixam apenas o recolhimento de impostos. Pelo modelo de partilha, adotado pelo PT, o Brasil é dono da área e participa, sempre, em pelo menos 30% da produção dos poços do pré-sal. A estimativa de lucro para Estado, pelo modelo de concessão, é de 40% a 50%, quando a partilha pode auferir para o país, entre 85% e 90% do que é produzido.

Brasileira/o algum/a compra qualquer coisa com R$ 0,01. Porém, desde a sexta-feira (27), esse é o valor pelo qual petroleiras estrangeiras, estatais e privadas, passaram a pagar pelo litro de 12 bilhões de barris de petróleo, de oito áreas do pré-sal, equivalente a cerca de 8 mil km². O nosso óleo está sendo entregue por menos de nada, sem que fosse necessário um único tiro. O do ministério de notáveis entreguistas pode causar um prejuízo de R$ 1 trilhão ao Brasil. E não é apenas o óleo, uma das maiores petroleiras do mundo, a Petrobras, está sendo desmantelada para ser entregue, a preço módico, a nações cuja autoestima preza o desenvolvimento.

O que mantém as famílias dentro de casa, sem reação contra o ataque que está sofrendo a possibilidade de um futuro com mais acesso à ascensão social para seus filhos e netos? Onde exatamente estão os 97% da população que são contra essa camarilha que desgoverna o Brasil, que não nas ruas para deporem Temer e seu ministério de notáveis bandidos, convocarem eleições diretas e instalarem uma Constituinte cidadã e soberana?

Temer privatizou uma jovem, grande e estratégica empresa, de apenas 46 anos, a BR distribuidora. O botim contra o patrimônio da nação rendeu humilhantes R$ 30 bilhões. Quatro décadas de desenvolvimento logístico e tecnológico de distribuição de óleo e gás, a bem dos interesses do País, o golpista decorativo entregou para o capital privado e estatal internacional. Doravante, os investimentos não se darão pela lógica das políticas de Estado, que não visam lucro, mas sim os desenvolvimentos do Estado e o social. A distribuição de energia seguirá a lógica da acumulação do lucro, com o menor custo. A desigualdade, que já grande, vai aumentar.

A complacência nacional com o golpe e ao humilhante ataque à soberania nacional remete à instalação da República, nosso primeiro golpe de Estado. À época, o povo assistiu, bestializado, a um monarca avançado, que desejou trazer o telefone para o Brasil, ser arbitrariamente deposto pelo consórcio elite escravocrata e exército, em 1889. Desde a primeira constituinte brasileira, até à de 1988, todas foram escritas, majoritariamente, pelos herdeiros dessa elite. A demonização da política interessa à elite e é necessário desconstruir essa impressão, para se restabelecer a democracia.

É impossível ao ser humano fugir da condição de político. Da mesma forma, sabe-se que, desde o seu surgimento, no Crescente Fértil, a política não é praticada com troca de flores entre as classes que disputam o espaço político. Na sala da casa, na escola, na igreja, no local de trabalho, na barbearia, em todos os espaços, é premente enfrentar esse debate. Estamos falando da soberania de um país gigantesco e rico, onde seis cidadãos têm mais da metade de tudo o que os restantes 207 milhões têm. Há algo de muito esquisito num país onde exposição em museu mobiliza mais a opinião pública que o ataque à soberania da nação. É como se ela nunca tivesse nos pertencido.