A língua de Richa é o chicote contra si

Enio Verri

Durante entrevista a uma rádio de São Paulo, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), deu um show de cinismo, sem mexer um músculo facial. Entre outras coisas, o governador disse que os brasileiros estão fartos de enganação, populismo, demagogia e, acima de tudo, de desvios de conduta da classe política e de tolerância com a corrupção e a falta de ética.

Quem não o conhece imagina ter ouvindo um impoluto político e administrador público regido pela ética. Quem o conhece não se deixar enganar. Desde o início do seu mandato, a população assiste ao desmonte das ferramentas públicas, a apropriação do público pelo privado, o grassar da corrupção e a truculência com que são tratados os trabalhadores do estado.

Richa não revelou aos ouvintes e nem o jornalista se deu ao trabalho de perguntar sobre o inquérito em que o governador responde no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no âmbito da operação Publicano. Segundo a acusação, a reeleição de Richa foi beneficiada com R$ 4,3 milhões desviados da Receita Estadual. Em 2016, a Associação dos Delegados de Polícia do Paraná (Adepol), numa publicação da instituição, considerou a corrupção como um aspecto endêmico do governo Beto Richa.

Assim como a operação Publicano, a Quadro Negro acusa o governador e sua base aliada, na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), de beneficiarem suas respectivas candidaturas com valores retirados dos mais de R$ 50 milhões desviados de construção de escolas no estado do Paraná.

Por causa do esquecido Richa e do distraído repórter, os ouvintes da rádio não ficaram sabendo que o governador responde, também no STJ, a um inquérito de licenciamento ambiental irregular na área do Porto de Paranaguá. A empresa Green Logística adquiriu licença ambiental para a construção de um estacionamento. De acordo com matéria jornalística, para o Ministério Público (MP), a Green Logística tem como sócia a BFMAR, cujos acionistas são, Beto, Fernanda, Marcelo, André e Rodrigo. Tratam-se do governador, esposa e filhos.

E como esquecer o dia 29 de abril de 2015, quanto Richa descarregou uma operação de guerra contra servidores públicos, a maioria de professores, que protestavam contra a apropriação de R$ 8,5 bilhões da Paranaprevidência, pelo governador? Segundo o Fórum das Entidades Sindicais do Paraná (FES), em dois anos, Richa torrou cerca de R$ 5 bilhões.

De acordo com o FES, o saldo da Paranaprevidência seria, hoje, de R$ 12 bilhões, se ainda administrado pelo fundo de aposentadoria dos servidores estaduais. O espaço é pouco para relatar desde avião e helicóptero alugado por cerca de 50 milhões ao ano, sem necessidade, a escolas sem merendas.

Nem a imprensa aliada a Richa consegue mais esconder o estado de calamidade a que está sendo conduzido o Paraná. Da posição de quarta economia brasileira, o estado é um sério candidato à triste condição de estados como Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, por exemplo. Richa não tem moral para acusar quem quer que seja.