Mais do que nunca, eleições diretas já

Enio Verri

Esqueça Temer, Rodrigo Maia, ou qualquer outro personagem político. O Brasil é conduzido por interesses da elite detentora do capital financeiro e dos meios de produção, com o subserviente apoio de parte da imprensa. Temer chegou ao fim, está sem força política para fazer avançar o desmonte do estado sob o nome de reformas da Previdência e trabalhista. O mercado está mais perdendo que ganhando com a demora da entrega do pagamento pelo financiamento ao golpe.

Maia, o Botafogo na lista da Odebretch, tem apenas um pouco menos de desgaste que Temer, mas é tão ilegítimo quanto o segundo. Caso empossado, terá de lidar com o mal-estar social e econômico causado, tanto pelo golpe, quanto pelo embate acerca das reformas, cada vez mais difundido e debatido na sociedade. Ele ainda terá, ao contrário de Temer, de proteger uma carreira política contra as deletérias consequências de ser o condutor de meditas que afetam mais de 80% da população brasileira, notadamente a mais pobre.

Seja como for, ao mercado pouco importa quem seja o despachante, desde que use a caneta para atender aos seus interesses. A única cadeira cativa no golpe é a do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, nome de confiança de quem financia o golpe. Esse é um dos motivos para apressar a substituição do tarefeiro da vez, pois o tempo está contra os deformadores do Estado de bem-estar social. Eles sabem que tais medidas só se aprovam com um governo ilegítimo, fora da Constituição, sob a proteção do braço armado do Estado e com o apoio de uma imprensa entreguista e sabuja.

Desde que assumiu a Presidência da Câmara, Maia deixa claro a quem serve. Em março, sentenciou que a Justiça do Trabalho “nem deveria existir”. Segundo ele, as mesmas leis com as quais o Partido dos Trabalhadores (PT) conduziu o País ao pleno emprego, até 2014, são as responsáveis pelos quase 14 milhões dos atuais desempregados. Já em maio, ele afirmou que a Casa do Povo está a serviço da agenda do mercado financeiro. Leia-se, bancos. Além de algoz da democracia, Maia usurpa cargo público em favor de interesses privados.

Posa de democrata, mas não passa mesmo de encenação. Adepto de Cunha, para quem este fez história ao conduzir o processo do golpe, Maia usa dos mesmos métodos do ex-deputado preso, para manobrar a Câmara. Em 23 de maio, com pouco mais de 50 deputados, abriu a Ordem do Dia e interrompeu a Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJC), onde se davam os debates para votar a PEC 227/2016, conhecida como a PEC das Diretas.

Em outra feita, Maia adotou o autoritarismo e a velhacaria de Eduardo Cunha para fazer cumprir a agenda do mercado. Em 19 de maio, fez aprovar um requerimento de urgência para acelerar a tramitação da reforma trabalhista, derrotado no dia 18 de maio. Trocar Temer por Maia não altera em nada as conjunturas política e econômica. Somente eleições diretas e a realização de uma constituinte cidadã e soberana é capaz de devolverem a normalidade democrática ao País.

Não está tudo bem, pelo contrário. Mais do que nunca, eleições diretas já é a pauta em volta da qual as forças progressistas devem e estão se organizando para mobilizar a sociedade a pressionar quem manobra o golpe. Nesse sentido, foram lançadas duas frentes suprapartidárias por eleições diretas já. Uma em junho e outra em julho.

O enfrentamento ao golpe não está sendo fácil. A pressão nas bases, onde moram e podem ser encontrados os parlamentares golpistas, deve ser forte e diuturna. Esses parlamentares devem ser procurados, identificados e admoestados em aeroportos e nas cidades onde moram. Devem ser cobrados para apoiarem a PEC das eleições diretas, sob pena de serem derrotados nas eleições de 2018. Somente assim será possível impor a agenda popular sobre a agenda do mercado, no Congresso Nacional. Avante, somente a democracia é capaz de nos tirar dessa nefasta conjuntura.