O Brasil paga caro pelo esperneio de Temer

Enio Verri

Não se pode esperar grandeza de quem não tem. Quem aguardava a renúncia de Temer, ouviu do minúsculo que a Procuradoria Geral da República (PGR) criou a justiça da ilação. Sim, segundo Temer, as gravações que substanciam delações, malas, dinheiro e mula não são provas que o incriminam. Nu e louco desqualificou os aspetos jurídicos da acusação para acusá-la de cassação política.

A perícia da Polícia Federal garantiu que a gravação na qual aparecem nomes como, Rodrigo Loures, Eduardo Cunha, Yunes e Geddel Vieira Lima, entre outros que se ligam num enredo lógico, não foi editada. Ainda assim, Temer se cerca de parlamentares do baixo clero para ofender a PF e valorizar uma perícia que lhe custou cerca de R$ 10 mil. Segundo o golpista decorativo, a conversa entre Loures e Ricardo Saud, na qual o primeiro fala em nome do presidente, são ilações da PGR.

À deriva, o país aguarda um nome para substituir um governo putrefato. A economia derrete e o desemprego aumenta em meio a um caos político-policial no qual estão envolvidos os três Poderes da República. O Executivo, com Temer e seu ministério de notáveis bandidos; o Legislativo, parceiro no golpe e na aprovação de medidas que dificultam ainda mais a vida dos mais pobres, e o Judiciário, com juízes, ministros e promotores citados, quando não envolvidos com empresários denunciados.

Temer está abandonado à própria sorte. Todos os jornais de circulação nacional, bem como vários regionais, além dos grandes jornais internacionais trouxeram a denúncia da PGR, na terça-feira (27). Nem os mais de 1000% de aumento em publicidade para cerca de 10 veículos de comunicação parecem ter sido suficientes para melhorar a imagem de um governo sem legitimidade popular e que age em prejuízo da nação.

A base de apoio da margem de erro que preside o Brasil se desfaz. O governo tem dificuldades de encontrar nomes para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC). Não está fácil nomear quem se disponha a deixar suas digitais no arquivamento da primeira das três denúncias contra Temer, a serem apresentadas pela PGR. Membros da CCJC não se pronunciam. Afinal, 2018 é logo ali.

O golpista decorativo não fez o dever de casa e frustrou o mercado financeiro. Um dos maiores banqueiros do País declarou que não acredita mais na reforma da Previdência, antes de 2019. O nome para substituir Temer é um mistério. Seu maior comparsa, o PSDB, bate cabeça quanto à permanência no iate Caronte. Tucanos de alta plumagem pedem a renúncia de Temer e a antecipação das eleições presidenciais, enquanto outros defendem o apoio, pelo menos até a aprovação das ditas reformas.

O PSDB pode abandonar Temer, ou esperar a putrefação total para ser alçado, pelo mercado, a novo inquilino do Palácio do Planalto, ainda que indelevelmente contaminado pela decomposição do anterior. Não há como o PSDB se afastar de Temer sem levar em si a marca da parceria no golpe de 2016. Apoiar Temer significa, também, se proteger da Lava Jato e pleitear apoio do PMDB, nas eleições de 2018.

Enquanto a crise política não for debelada, com eleições gerais diretas e a convocação de uma constituinte soberana e cidadã, a crise econômica vai se aprofundar. O Índice de Confiança do Comércio (Icom), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), caiu 2,9 pontos, em junho, voltando ao mesmo nível de março, com 85,7 pontos.

Segundo a FGV, a melhora de março a maio se deveu à liberação do FGTS e à queda dos juros. Foi uma melhora efêmera da economia. A maior parte dos valores sacados do FGTS, que variam entre R$ 500 e R$ 1,5 mil, vem sendo usado para pagar dívidas e, portanto, já está de volta ao mercado financeiro. Já a inflação, está baixa porque não há consumo, porque não há emprego, porque a indústria não está contratando, porque não tem para quem produzir. Eis o ciclo viciado em que a crise política colocou o Brasil.