O consórcio golpista e a população despolitizada

Enio Verri

A população já deveria ter compreendido que um golpe de Estado não é aplicado sem a formação de um consórcio entre os Poderes da República e a elite. O principal mecanismo desse grupo para manter anestesiada uma população desinformada e despolitizada é o uso criminoso dos veículos de comunicação, para influenciar o comportamento social. A sequência escandalosa de contradições do Judiciário e a atuação de uma quadrilha no Palácio do Planalto, com robustas provas, teriam provocado mobilizações sociais em qualquer país minimamente consciente.

Aos poderes que financiam o golpe não interessa quem esteja à frente da camarilha, desde que o mercado sejam atendido. A imprensa pertence à elite e esta não tem acordo com os Poderes, porque já provou que pode e é menos prejudicial comprá-los. Assim como foi com Dilma, que era demonizada enquanto Temer era um “grande articulista”, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, muito menos desgastado, pode ser alçado, a qualquer momento, a presidente do mesmo mercado.

O País está parado, a capacidade produtiva das empresas, principalmente, as de transformação está em 70%, desde 2016. As empresas não tem acesso a crédito mais barato para investir em produção, ou mesmo para voltarem a ser adimplentes. Segundo o Banco Central, a participação do crédito corporativo caiu de 28,5% para 22,2% do no PIB. Em meio a uma recessão, com altíssimo índice de desemprego, o Banco Central (BC) projeta para 2017 uma taxa de juros básicos, a Selic, em mais de 7%, quando a inflação será de 3%. É simplesmente o dobro.

Todos os dias, a imprensa trabalha intensamente para induzir a nação a acreditar que a economia está se recuperando, sempre aos poucos, como frisam os especialistas de plantão. Porém, a realidade é bem diferente da fantasia propagada pelo consórcio golpista. A taxa básica do BC é apenas uma referência. Os juros cobrados nos cheque especial e cartão de crédito são de aproximadamente 400% a.a..

O banqueiro, aquele que vive de juros do dinheiro alheio, ganha em momentos de calmaria ou de crise financeira. Se os empresários não pegam crédito, famílias desempregadas e endividadas são as vítimas da vez. A participação do crédito pessoal, em 2017, será de 24,9% do PIB. Sem o crédito, as empresas não criam empregos e não movimentam os setores da produção primária e o comércio. É a estagnação econômica. Provoca, em médio prazo, caos social.

As famílias se endividam para pagar dívidas já contraídas e acumuladas pela realidade do desemprego sobre o qual a imprensa não se cansa de mentir, dizendo que está acabando. O Brasil está preso a uma espiral econômica negativa, cujas consequências já podem ser observadas. Segundo o Banco Mundial, até o fim de 2017, entre 2,5 e 3,6 milhões de brasileiros voltarão para a pobreza. Em 2012, no terceiro governo do Partido dos Trabalhadores, o Brasil saiu do Mapa da Fome, monitorado pela ONU.

A reforma trabalhista ainda não está valendo, mas os empresários comemoram a defasagem salarial entre a atual e a antiga força de trabalho já disponível para contratação. O índice passou de 93% para 87% do valor que se pagava. O lugar reservado na imprensa brasileira aos que produzem as riquezas da nação é o da subalternidade. Um dos primeiros e mais importantes atos revolucionários é consumir menos e com mais criticidade o Jornal Nacional. Reagir passa, necessariamente, pela capacidade de se indignar e se mobilizar. E consumir essa imprensa não é a solução.