A ópera plutocrata de Greca

Enio Verri

O prefeito de Curitiba, Rafael Greca, é dado a óperas bufas, como a do naufrágio da réplica de uma caravela, em 2000. Deslumbrado, conspurcou a Ópera de Arame para a sua mais nova obra, a pantomima do pacotaço de maldades. Servidores públicos foram massacrados, com bombas lançadas de helicóptero, balas de borracha, spray de pimenta, cassetetes e cavalaria, para que sua base aliada aprovasse o mesmo modelo de reforma adotado por Richa e Temer, o desmonte do Estado de bem-estar social.

À guiza de um roteiro infame, os atores da base aliada e o próprio líder da prefeitura, na Câmara, não tiveram coragem de se pronunciar sobre o que votaram. Apenas os vereadores da oposição denunciaram o virulento ataque de Greca ao desenvolvimento da careira pública e a apropriação dos R$ 700 milhões da Previdência municipal, entre outras medidas que não seriam implantadas de outra forma senão com a proteção do braço armado do Estado. Sinal de que os servidores estão com a razão.

O prefeito mentiu para se eleger. Admitiu que vomita com o cheiro de pobre, mas, em nenhum momento da sua campanha Greca sugeriu esse programa. Um clássico caso de estelionato eleitoral. O pacote de reformas foi justificado com a velha falácia do peso da folha de pagamento. Greca não informa a população que a folha consome 47% do Orçamento e, portanto, abaixo do limite prudencial de 51%.

A prefeitura não dialogou com o sindicato, mas manteve as portas abertas para CNPJs que devem R$ 5 bilhões em Previdência ao município. Protege os que já tem e retira de quem já não tem mais de onde retirar. Impõe aos servidores municipais um aumento de 11% para 14% da alíquota do recolhimento à Previdência. O pacotaço prevê ainda a suspensão do plano de carreira dos servidores e do pagamento de licença prêmio, sob o argumento da falta de previsão orçamentária.

Mentira de Greca. Dos R$ 8,5 bilhões do Orçamento, de 2017, apenas R$ 1,56 bilhão foi pra a Educação e R$ 1,66 bilhão para a Saúde. Os mais de R$ 5 bilhões restantes foram destinados a outras áreas. Onde está o peso do funcionalismo? Mais de 60% o orçamento são recursos próprios. Apenas 18,5% e 12,5% são oriundos dos governos federal e estadual, respectivamente. Tanto a recomposição inflacionária quanto o pagamento dos planos de carreira já estavam previstos no Orçamento.

Vilão rastaquera dessa ópera bufa, Greca aperta ainda mais a vida de quem tem menos. O prefeito pretende aprovar um aumento seletivo da alíquota do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), de 2,4% para 2,7%, de imóveis cujos valores variem entre R$ 140 mil e R$ 300 mil. Imóvel de milionário fica de fora da cobrança. Para humilhar seu alter ego, Beto Richa, Greca vai aumentar de R$ 10 para R$ 20, o IPTU, e cobrar taxa de lixo de famílias isentas.

Em pronta resposta à ofensa, servidores públicos organizados ocuparam o prédio da prefeitura, onde permaneceram até receberem uma reintegração de posse com ameaça de multa de R$ 100 mil ao Sindicato dos Servidores Municipais de Curitiba (SISMUC), que convoca greve geral, para hoje, pela revogação do pacotaço. A concentração será à partir das 08:00h, na Praça 19 de dezembro (da Mulher Nua). Toda solidariedade aos trabalhadores de Curitiba.