Perseguição contra o Brasil

Enio Verri

A desenfreada, institucionalizada e, cada vez mais, escancarada perseguição ao ex-presidente Lula é a vivência do “O Processo”, de Kafka. No lugar de Josef K., Lula, como acusado de um processo sem fim e para o qual a Lei é moldada no sentido de ser impossível a ele escapar da condenação. No caso real, há um componente novo, típico da atualidade. O Judiciário e os órgãos de fiscalização e controle, que perpetram essa perseguição, são fielmente apoiados pela imprensa hegemônica.

Para além de impedi-lo de concorrer às eleições de 2018, a cotidiana e normalizada histeria persecutória contra Lula serve como cortina de fumaça para manter adormecida a sociedade. Enquanto ela discute recibos de aluguel, direitos a condições mínimas de trabalho, aposentadoria, educação, alimentação, cultura, saúde são retirados, e as empresas estatais estratégicas e as riquezas naturais são entregues aos interesses do capital financeiro internacional.

Recentemente, um jornal de grande circulação publicou matéria em que cobra da Justiça Federal do Distrito Federal celeridade nos processos que correm contra Lula, nessa Comarca. Em meio ao acúmulo de processos que toma todo o sistema Judiciário, interessa ao veículo de informação apenas os processo contra Lula. Diariamente, por todos os meios, a imprensa hegemônica e deletéria repete acusações sem provas, ou já desqualificadas pela defesa de Lula.

Já as razões técnicas pelas quais as acusações são rechaçadas pela defesa não têm a mesma intensidade e riqueza de detalhes nessa imprensa. Mas Lula, um dos maiores líderes da história do Brasil, é a cereja do bolo para o consórcio golpista. O que está em jogo é a soberania da nação. A camarilha de Temer conduz o País a condições de centenas de anos atrás. Estamos sendo condenados a eternos campeões mundiais de produção e exportação de commodities, que enriquecem e desenvolvem outras nações, outros povos, que não o nosso.

Certa vez, Lula disse que os que o acusam se aferraram a uma mentira da qual não podem abandonar, senão confessando e pedindo desculpas. A cada medida desesperada da Lava Jato, a sentença se revela mais temerária. Não há possibilidade do reconhecimento do erro, pelo contrário, aprofunda-se na mentira. Superada a autenticidade dos recibos, material e ideológica, desconfia-se dos originais. Mais uma acusação será desqualificada. Mas, e depois, o que mais invetarão, o Judiciário e o MP?

A participação do Judiciário no golpe é inegável. Vão desde a condução coercitiva ilegal de Lula, à atenção do ministro Gilmar Mendes ao pedido do senador Aécio Neves, para que o primeiro influenciasse no voto do senador Flecha Ribeiro, em favor do segundo. A imprensa não explorou o segundo fato da mesma forma que quando divulgou intensamente a conversa entre Lula e a presidenta Dilma, em 2016, interceptada criminosamente pela Polícia Federal (PF), a mando da 13ª Vara de Curitiba.

Os mais recentes fatos da operação Lava Jato nos impõe mais preocupações. Assim como na obra de Kafka, Lula não consegue provar sua inocência porque as provas que ele apresenta são solene e invariavelmente desqualificadas pelo juízo, cujas decisões são movidas exclusivamente por convicções, na carência de provas. E são pouquíssimas as vozes desse poder que ousam se levantar contra os abusos e arbítrios da Lava Jato.

A Força Tarefa de perseguição ao Lula não tem como provar que o tríplex é do presidente e nem que os recibos são falsos. Determinada a aniquilá-lo, lança mão de mentiras aceitas tacitamente por uma sociedade despolitizada e à mercê de uma imprensa deletéria para os interesses da nação. Já vivemos numa ditadura do Judiciário, contra a qual não há a quem reclamar. Não apenas Lula, mas todo e qualquer cidadão pode, sem acusação que se sustente, ser jogado nos labirintos de um Judiciário a serviço de uma elite peçonhenta e covarde.

O golpe será vencido somente quando as famílias ganharem as ruas, em seus círculos sociais, como igrejas, ambiente de trabalho, escola, hora de lazer. A manipulação da imprensa deve ser denunciada em todos os lugares. O primeiro ato é deixar de consumir os veículos de comunicação – pertencentes a famílias ideologicamente escravocratas e entreguistas da nação – que apoiam o golpe e são contra um Estado Ampliado.

Não é esse o Brasil que um(a) brasileiro(a) digno(a) deseja e merece. Habitamos um país grande e, por enquanto, com algumas ferramentas estatais e riquezas naturais com as quais foi possível criar o Minha Casa Minha Vida, o FIES, transpor as águas do Rio São Francisco, construir submarino nuclear e tirar o Brasil do Mapa da Fome. É necessário reagir ao desmonte, denunciar em todos os lugares onde for possível. É preciso desmentir a mídia que pinta o Brasil como um vira latas, ente as nações.