Precisamos falar de política

Enio Verri

Semana passada, o Plenário da Câmara dos Deputados começou a votar a reforma política. A única proposta votada, e majoritariamente rejeitada, foi a da criação de um fundo público de R$ 3,6 bilhões para financiar campanhas eleitorais. Dividido por cerca de 145 milhões de eleitores, cada um arcaria com aproximadamente R$ 25,00.

O valor não é astronômico. Sua rejeição se dá, por um lado, pela ojeriza da população à representatividade política e, por outro, por interesses inconfessáveis de quadros políticos que preferem o financiamento privado, cujo investimento nas eleições de 2014 foi de R$ 5,1 bilhões. O resultado é o espetáculo que assistimos desde o início da operação Lava Jato, protagonizado por empresas bilionárias e corruptas, proprietárias de centenas de parlamentares, igualmente corrupta/os.

O Partido dos Trabalhadores (PT) é a favor do financiamento público de campanha, com a adoção do maior número de mecanismos de fiscalização e controle e com valores razoáveis, como em 2002, quando o custo estimado por eleitor não chegava a R$ 7,00, num valor total de pouco mais de R$ 1 bilhão. De qualquer forma, o tipo de financiamento diz menos sobre a qualidade do quadro político eleito do que o altíssimo nível de despolitização geral da população.

Não adianta votar e voltar para o cotidiano do trabalho, da família, da vida social, como se a política não fizesse parte de tudo isso. Não conseguimos fugir da condição de animais políticos, como nos definiu muito bem Aristóteles. E um dos princípios da política é a mobilização. Não é difícil para a sociedade saber quem são a/os parlamentares que defendem um ou outro tipo de financiamento.

Basta acompanhar, pelo site da Câmara, seus posicionamentos, suas declarações, ou seus pronunciamentos, em Plenário. Desde as familias, passando pelos vizinhos mais próximos, os bairros, as escolas, as igrejas, os sindicatos, os partidos, até tomar toda a sociedade do mais incontinente estado de desobediência civil até que sejam realizadas, se possível ainda este ano, eleições diretas, com o estabelecimento de uma constituinte soberana, com extrema e profunda participação social.

A maior parte da população, independente do nível de escolarização, é analfabeta política. Por incrível que pareça, os menos escolarizados tendem a ouvir o contraditório do massacre promovido diariamente pela imprensa, e ponderar com mais racionalidade. Os mais escolarizados, ao contrário, têm certo orgulho de alimentar o seu senso crítico da imprensa hegemônica e repetir monocórdica e obedientemente o seu conteúdo, ainda que diante da comprovação de fatos, ou da falta deles.

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva são dois grandes exemplos de que escolarização e politização não são diretamente proporcionais. O primeiro é um professor de formação internacional. Ao fim dos oito anos de mandato de FHC morria-se de fome cerca de 300 pessoas por dia. Quando o torneiro mecânico, com ensino médio, terminou igual período de mandato, cerca de 40 milhões de brasileiros já não mais passavam fome. Ambos são políticos e cada um adota uma.

Distritão

Esta semana será decisiva para o futuro político do País, quando daremos sequência à reforma política. Uma das propostas é o modelo de eleição, popularmente chamado de Distritão. Ele é adotado nos países, Afeganistão, Kuait, Emirados Árabes e Vanatu. No Japão, o modelo adotado em 1947 foi substituído nos anos 1990, por ser caro, ter gerado uma casta política insubstituível e por aumentar a corrupção.

Trata-se de um modelo que favorece o personalismo em detrimento da ideologia programática dos partidos políticos. Pelo Distritão, serão eleitos políticos já conhecidos, ou personalidades famosas, como artistas e jogadores de futebol. Dessa forma, programas como: Luz Para todos, Água Para Todos, Minha Casa Minha Vida, por exemplo, estabelecidos pelos programas partidários, estarão a reboque do que pensa esse ou aquele candidato, pois o voto será para ele.

O Partido dos Trabalhadores (PT) defende o sistema proporcional de lista aberta, pelo qual o eleitor vota, ao mesmo tempo, em um candidato de sua preferência e na legenda que contém a proposta do partido a ser defendida pelo seu candidato. Também defendemos o fim das coligações para eleições proporcionais. A medida fará reduzir o número de legendas, principalmente as sem ideologia programática e que existem apenas para vender voto e espaço de tempo em TVs e rádios.

Uma superficial busca na internet é capaz de revelar o posicionamento de dezenas de deputada/os e senadora/es em favor do financiamento empresarial de campanha e do modelo Distritão. A população deve estar atenta para o desenrolar do processo, na Câmara dos Deputados, para não ser enganada por parte da imprensa que induz a população a jogar no mesmo saco, o joio e o trigo da política.

Não adianta acompanhar tudo pela imprensa particularmente interessada no financiamento empresarial de campanha. Ela fornecerá a informação de forma estanque e confusa para causar o desinteresse da sociedade. Ao fim e ao cabo, o/a eleitor(a) estará repetindo o velho discurso que não contribui para a politização da população e para a melhora dos quadros de representatividade política: “político é tudo igual”. Não deixe que a política seja definitivamente entregue à elite. Fale de política.