Um governo que joga contra a população do seu País

Enio Verri

A grande sorte do consórcio que tomou de assalto o governo brasileiro, em 2016, é a profunda e perturbadora despolitização da população brasileira. Dessa forma, fica fácil promover o desmantelamento de uma mínima proteção social e trabalhista, a destruição e a entrega das reservas energéticas brasileiras, sem a devida e merecida reação de uma população indignada.

Segundo o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Sicsú, 500 mil famílias que haviam saído do programa, até 2011, voltaram para o Bolsa Família, em 2016. É um governo que joga contra a população, impondo sacrifícios desumanos, como o de se aposentar aos 70 anos para que o dinheiro economizado com os trabalhadores seja entregue a rentistas do mercado financeiro.

Ao invés de implementar políticas anticíclicas para estimular a empregabilidade e o consumo, Temer culpa os trabalhadores pela crise e penaliza mais de 80% da população brasileira, notadamente a que recebe até um salário mínimo. O atual governo aplica uma política pró-cíclica, pela qual se alinha à recessão, com a relativização de direitos trabalhistas, previdenciários e da gratuidade da educação, por exemplo, dentre outros, como a entrega das reservas energéticas brasileiras.

O modelo previdenciário proposto pela equipe de Temer se assemelha ao do Chile, que se encontra em crise. Segundo dados de um relatório apresentados à ex-presidenta Michelle Bachelet, os aposentados chilenos estão recebendo de 34% a 45% do valor dos salários dos últimos 10 anos de trabalho. Cerca de 90% dos aposentados recebem apenas R$ 726, ou 2/3 do salário mínimo chileno.

Um grupo político que toma um governo de assalto, passa por cima da vontade popular e rasga a Constituição Federal, não pode ter interesse algum no desenvolvimento da população e, consequentemente, no da nação. Não basta humilhar com a fome, mas é preciso manter a população na ignorância. Recente medida do MEC revela a truculência de que são formadas as propostas para a Educação.

O governo Temer apresentou uma reforma do Ensino Médio, de cima para baixo, por meio da Medida Provisória 746/2016. O debate sobre reformas estruturais, como o horário integral para o período letivo e a opção por determinadas disciplinas, como Sociologia e Filosofia, por exemplo, foi negado, resultando numa imensa onda de ocupações de escolas por estudantes, em todo o País, em 2016.

Em ato revelador da indigente condição de representatividade, o governo investiu em mais desinformação, ao pagar, com dinheiro público, R$ 65 mil a jovens para defender, a qualquer custo, a reforma do Ensino Médio. Entre outubro de 2016 a janeiro de 2017, o governo gastou 13 milhões em publicidade, um aumento de 51% em relação ao período imediatamente anterior.

O fiasco promovido em nome do Ministério da Educação (MEC) foi digno das piores armações do antológico personagem de Dias Gomes, Odorico Paraguaçu. O nível argumentativo é o reflexo fidedigno do atual governo. Misoginia, homofobia, racismo, sexismo, preconceito de origem, entre outros, foram os argumentos dos jovens contratados para defender um projeto de alta complexidade, proposto sem o debate e a anuência de quem interessaria, a população.

A desfaçatez do governo é infinita. Depois da celeuma causada por seus contratados, o MEC se pronunciou para dizer que o pensamento expressado pelos jovens youtubers não refletem o pensamento do ministério e nem do governo. Então, o governo contrata um serviço sem parâmetros mínimos para a sua prestação, o público é ofendido e confundido com informações superficiais e tendenciosas, e tudo fica por isso mesmo?

Ou seja, para o governo golpista, o público é, de fato, um estorvo, uma peça a ser retirada do caminho, ou desconsiderada como plena de direitos constitucionais. Pior, a população brasileira é considerada como um ente passível de ter seus direitos suspensos e mantida na mais profunda ignorância. Enfim, que nome se dá a um governo que age contra os interesses da população e, consequentemente, contra os da nação?