Como controlar o senso crítico

Publicado em 27 de junho de 2017

Enio Verri

Entre outas frases atribuídas ao jornalista americano, Glenn Greenwald, há uma que expõe não apenas as vísceras do golpe, mas também a dimensão da alienação da nação, mantida sob absoluto controle por uma minoria proprietária da maior parte dos veículos de comunicação. Greenwald pergunta, “Como é possível não perceber que o objetivo da elite brasileira, com o impeachment da Dilma, é proteger os verdadeiros ladrões”.

As vísceras estão aí, como disse um inesquecível frasista de Roraima, o senador Romero Jucá: um acordão, com o Supremo Tribunal Federal, com as forças armadas, com tudo. Ele também disse que alguns ministros, “os caras” e a imprensa queriam tirar “ela”, porque não era possível barrar processos no STF com Dilma na Presidência. Depor uma presidenta, democraticamente eleita, por falta de apoio popular e no Congresso, tem nome: golpe.

Contra a camarilha que se adonou do Estado, a serviço da elite mais brejeira, truculenta e cafona do planeta, há todo tipo de escandalosas provas materiais. A crise chegou a tal ponto, que nem a imprensa controlada pelo mercado financeiro e interessada no golpe, consegue esconder a putrefação. Constrangida, noticia a decomposição do governo, sempre ressaltando a importância de manter as reformas que tornarão a vida dos trabalhadores brasileiros ainda mais precária.

À elite não interessa quem esteja no comando. A manutenção de seus privilégios está acima de todas as coisas. Não pagar impostos, não dividir lugar com pobre, não admitir ascensão social e não permitir ao Brasil se afirmar como nação soberana, industrializada, social, política, econômica e tecnologicamente avançada. Essa elite sabuja se satisfaz em fornecer matéria prima para o desenvolvimento de nações que se respeitam. Para estabelecer as condições, usa de uma poderosa máquina de alienação, chamada mídia.

O senso crítico de uma nação despolitizada é controlado com informação manipulada, fragmentada e passada de forma incompreensível à maioria da população brasileira. A ONG Repórter Brasil observou a cobertura da imprensa à reforma da Previdência. Os dados são estarrecedores, tamanha a virulência do embrutecimento da opinião pública. Entre 21 de novembro a 20 de dezembro de 2016, foram analisados mais de 400 textos dos maiores jornais e 45 minutos dos principais telejornais.

O alinhamento é escandaloso Mais de 90% do tempo da TV Globo e 90% dos textos do jornal “O Globo” foram favoráveis à reforma. Nos jornais, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, 87% e 83% dos seus textos se fizeram de porta vozes do desmonte da Previdência. O telejornal da Record foi o que menos atenção dedicou à proposta de miserabilização de mais de 80% da população, notadamente a mais pobre. Apenas 62% de seu tempo.

A imprensa é uma agência de propaganda da reforma da Previdência. Das pessoas ouvidas pelos telejornais, Nacional e da Record, e pelos jornais, Estadão, O Globo e Folha, 83%, 71%, 73%, 72% e 70%, respectivamente, foram favoráveis a uma reforma que impõe o fim da aposentadoria para a maioria da população. Quem vive do trabalho braçal, dificilmente conseguirá se aposentar entre 65 e 70 anos de idade.

Tanto nas centenas de textos quanto nos intermináveis minutos em defesa da reforma, o tom do discurso é catastrófico. Expressões, como: “a previdência está quebrada”, “mal necessário”, “garantia do futuro”, fertilizaram os argumentos da opinião pública. O resultado da maciça propaganda está nos 44%, 18% e 15% dos leitores da Folha, do Estadão e do O Globo que são favoráveis à reforma que vai cortar em 50% de um salário mínimo das pensões por morte e das aposentadorias por invalidez.

O maior inimigo da sociedade brasileira é a sua elite, que usa de seu poder econômico para comprar veículos de comunicação e parlamentares para perpetuar uma das mais indecentes desigualdades sociais do planeta. Mente ao afirmar que a Previdência está quebrada, quando é sabido que ela é superavitária. Culpa os assalariados de um suposto déficit e esconde a sua bilionária dívida com a Previdência, além dos impostos que não paga sobre suas propriedades.

A despolitização da nação é o resultado do secular comportamento dessa elite, de manter a população bestializada, enquanto se apossa não apenas dos meios de produção, mas do funcionamento do Estado. Partidos políticos, sindicatos e os vários movimentos sociais comprometidos com a base social estão com a hercúlea tarefa de desconstruir essa alienação programada para só dizer sim, sim, sim.

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