Bolsonaro vendeu refinaria da Petrobras pela metade do preço, aponta estudo

Uma análise realizada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) apontou que a Petrobras negociou a venda da Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, pela metade do valor que poderia receber.

Segundo os cálculos do Ineep, a Rlam está avaliada entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões. Na semana passada, a Petrobras anunciou que o grupo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes, venceu a disputa pela refinaria com uma oferta de US$ 1,65 bilhão. O Ineep é um instituto ligado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), que representa os trabalhadores. A Petrobras afirmou, em nota, que a negociação foi realizada a partir de uma faixa de valores, que considera as características técnicas, de produtividade e do potencial da refinaria, assim como cenários corporativos para planejamento.

“Além disso, a Petrobras contrata assessores financeiros independentes (bancos ou instituições financeiras com reconhecida experiência) para avaliar as transações e atestar se o valor de venda é justo do ponto de vista financeiro”, diz o texto (veja a íntegra no fim deste texto).

A empresa ressaltou, ainda, que todo o processo é auditado por órgãos de fiscalização, e que a venda só é concluída “após aprovação das instâncias competentes”.

Como foram feitos os cálculos do Ineep

As estimativas do Ineep se baseiam no fluxo de caixa da refinaria. A partir dos resultados obtidos pela Rlam, os pesquisadores projetaram as receitas e despesas da empresa para os próximos anos.
“Estimar a receita é simples, mas, para a despesa, não há um indicador específico. Ela depende, por exemplo, do regime de contratação de trabalhadores, de medidas de redução de custos etc.”, diz Rodrigo Leão, coordenador técnico do Ineep e pesquisador visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Por conta disso, o Instituto desenhou três cenários para o cálculo do valor de mercado da Rlam, de acordo com o valor das despesas. Segundo os pesquisadores, o preço da refinaria, nas três situações, seria de US$ 3,12 bilhões; US$ 3,52 bilhões ou US$ 3,92 bilhões.

Venda ainda não foi concluída, mas funcionários protestam

Mesmo com a apresentação da oferta pelo Mubadala Capital, a venda da Rlam ainda não foi concluída. Segundo a Petrobras, a operação precisa, agora, ser aprovada no Conselho de Administração da empresa. A negociação deve, ainda, ser submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A decisão pela venda, porém, já gerou protestos de funcionários. Na quarta-feira (10), trabalhadores fizeram uma manifestação na estrada que dá acesso à refinaria, no município de São Francisco do Conde, na Bahia. Além disso, a FUP marcou greve para esta quinta-feira.

De acordo com a Petrobras, a venda não levará a nenhuma demissão. “A companhia oferece opções aos empregados, como transferência para outros polos”, diz comunicado divulgado pela empresa também na quarta-feira (10).

Petrobras já recusou ofertas pela Repar, no Paraná

Além da Rlam, está nos planos da Petrobras vender mais sete estruturas ainda em 2021: a Unidade de Industrialização do Xisto (Six), no Paraná; as refinarias Presidente Getúlio Vargas (Repar), também no Paraná; Alberto Pasqualini (Refap), no Rio Grande do Sul; Isaac Sabbá (Reman), no Amazonas; Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco; Gabriel Passos (Regap), em Minas Gerais; e Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste (Lubnor), no Ceará.

A refinaria na Bahia foi a primeira que teve uma oferta vencedora. No caso da Repar, a Petrobras decidiu reiniciar o processo de venda, depois de receber propostas menores do que o valor avaliado.

Na opinião de Leão, o momento não é o mais adequado para a venda das estruturas. “Algumas empresas americanas estão preferindo paralisar as refinarias do que vendê-las. O cenário está muito ruim”, diz o coordenador do Ineep.

Segundo ele, o ideal seria que a Petrobras esperasse os desdobramentos da pandemia para, então, decidir o que fazer com as refinarias.

“É preciso ver como vai ficar o mercado para, então, pensar em uma estratégia para o refino. Agora, as propostas que virão para a compra vão ser muito baixas. Além disso, o refino ajuda quando o preço do petróleo cai muito. No ano passado, a Petrobras teve bons resultados exportando combustível”, afirma Leão.