É a política, paranaense

A indestrutível história revelará o curioso povo que foi espoliado de direitos sociais, sem reação. Uma gente que ficou em silêncio diante da supressão de investimentos em educação, água, saneamento, trabalho, moradia, transporte e cultura, como se não fossem direitos básicos. Áreas em que qualquer governo decente, com um mínimo de respeito a si e aos votos recebidos, valorizaria e se orgulharia de investir, inclusive como mecanismo para arrefecer a violência produzida pela escandalosa desigualdade social que se aprofunda com as políticas ultraliberais recessivas, incapazes de gerar emprego e renda. Em vários países da América Latina, a população está se insurgindo contra essas políticas, implantadas há cerca de 30 anos. O Brasil e o Paraná estão indo no mesmo caminho, com a adoção de medidas que vão mergulhar o estado num salve-se quem puder.

Clama aos olhos uma sociedade cuja inação a levará à decadência, quando não há necessidade disso, uma vez que, ao longo de séculos, os paranaenses construíram um estado forte, rico e moderno. O que acontece no Paraná nada mais é que o velho modus operandi de desmonte do Estado. Carlos Massa está empenhado, única e exclusivamente, em destruir o Paraná, submetendo-o ao mercado financeiro. Não sei o que é mais difícil de entender, se um governador que age deliberadamente para solapar o patrimônio dos paranaenses, ou uma sociedade que assiste ao desmonte, sem reagir. Difícil saber o que é mais estarrecedor, um governo que a tudo destrói, como se a ele o patrimônio pertencesse, ou saber que paraenses aceitam que o estado lhes dificulte o acesso aos bancos escolares, com redução de turmas, fechamento de escolas e desmantelamento as universidades estaduais.

A política do governador Ratinho não é impensada, pelo contrário, é deliberada. Ele não tem compromisso com o estado e sua gente. Nunca estudou em escola pública ou foi atendido pelo SUS. O governador desmonta, a marretadas, um Estado que não é dele e nem para ele, mas sim para gente cuja renda mensal varia entre R$ 415 a dois salários mínimos. Com a mesma cegueira e ganância, empresários submissos aos interesses de outros países atendem as exigências do mercado e programam a completa desregulamentação das relações entre capital e trabalho, retrocedendo o estado ao século 18, quando o tronco era uma paisagem social brasileira. Não se importam com o prejuízo que essa destruição vai causar. Para eles, quanto menos investimentos mais mão de obra barata à mercê da pinça do mercado de trabalho, que escolhe esse ou aquele para um trabalho temporário, precário, sem segurança alguma, como a desproteção à trabalhadora temporária que engravidar.

Dessa forma, toda semana, os paranaenses serão, até o fim do governo Ratinho, impactados com mais redução do Estado. Enfim, o governo estadual agirá sempre do mesmo modo, impondo medidas que restringem, cada vez mais, o acesso dos pobres a alguma condição mínima de dignidade. Ratinho sabe, perfeitamente, que mais de 80% dos municípios do Paraná dependem dos pagamentos das aposentadorias e dos benefícios sociais pagos pela Seguridade Social. A reforma da Previdência vai cortar cerca de 40% de quem recebe até dois salários mínimos, que são mais de 75% dos trabalhadores. O governador atenta contra o desenvolvimento do estado e dos valorosos paranaenses que são muito maiores que um governo passageiro e feito para poucos.

Carlos Massa sabe que as instituições públicas de ensino superior devolvem à sociedade, pelo R$ 4 do R$ 1 nelas investido. Pelos dados, a receita usada por Ratinho não vai dar certo, mas isso não importa para quem se submete, com muito gosto, ao mercado financeiro. O resultado será o aprofundamento da miséria. Com menos poder de compra, as famílias, por óbvio, consumirão menos. Haverá redução nas vendas, no recolhimento de impostos e de contratação de mão de obra. Vindo de Ratinho, a política causa menos espanto que o silêncio das ruas, pois isso se sabe que os paranaenses não concordam que o Paraná seja um estado de quinta categoria. Será muito difícil e caro reconstruir todo o patrimônio do Paraná. Muito mais barato será a mobilização da sociedade para impedir o desmonte.