Ratinho defende especuladores e prejudica a população

O aumento do valor da taxa de água para os consumidores é uma crueldade já esperada do governador Ratinho Jr.. Afinal, ele teve a oportunidade de revogar o reajuste, quando se reuniu com acionistas da Sanepar para defini-lo, mas preferiu defender os interesses de investidores quem não sabem onde fica o Paraná. Hoje, 80% dela, que foi de todos os paranaenses, estão nas mãos de aplicadores em bolsa de valores, brasileiros e estrangeiros. Não entendem absolutamente nada do assunto senão do ponto de vista da lucratividade que se pode ter com a água. O único interesse é a distribuição de dividendos auferidos. Não existe a expressão “investimento”. Os paranaenses podem observar um exemplo muito eloquente dos resultados da privatização, no Amapá, há mais de 20 dias sem energia elétrica. A empresa foi vendida para gestores estrangeiros de aplicações financeiras, sem conhecimento algum do serviço, cujos lucros não foram investidos em manutenção da estrutura e aumento da potência. Depois do caos instalado, o Estado foi chamado para resolver.

O Paraná tem um governo que, em meio às crises sanitária e econômica, com o aumento da contaminação e do número de desempregados, vai tornar mais cara a tarifa de água única e exclusivamente para elevar o lucro de quem não investe nas condições para a empresa oferecer amplo e inclusivo serviço de fornecimento e água e tratamento de esgoto. Fica mais clara a falsidade da propalada eficiência da iniciativa privada, que não passa de um discurso para desinformar a população e permitir que ela não reaja à venda de ferramentas públicas necessárias e únicas capazes de promover a democratização de acesso aos serviços. A responsabilidade social das empresas Sanepar e Copel deveria ser o bastante para impedir que elas fossem privatizadas. Não foram adquiridas por empresas desses ramos da infraestrutura, mas sim por especuladores financeiros. Essa política excludente, que deixará cada vez mais longe do acesso a maioria dos paranaenses, reflete com fidelidade a ideologia de Ratinho.

O caos no Amapá e o aumento de tarifa da água para satisfazer aplicador de bolsa de valores, no Paraná, são desdobramentos de políticas do pensamento ultraliberal, segundo o qual o mercado a tudo regula. A história é farta de momentos em que o mercado sucumbiu às contradições do capitalismo e foi socorrido pelo Estado, que é quem induz o desenvolvimento. A iniciativa privada tem o discurso, corroborado por alguns governos, das vantagens da concorrência. De fato, ela é bem vinda. Contudo, o mercado de aplicadores não construiu uma empresa para concorrer com a Sanepar e com a Copel. Não investiram o que os paranaenses já pagaram por elas. Ratinho é o Bolsonaro, calado. Aplica a política sem consultar a sociedade, a mais interessada, a que vai pagar o lucro dos aplicadores. Os dois praticam a mesma política dos anos 1990, quando o PSDB reduziu o Brasil à estatura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e tentou entregá-lo ao interesse do desenvolvimento de outros países. São idênticos, no discurso e na prática.

Há erros e contradições nas empresas públicas, como há em qualquer instituição. Porém, os problemas devem ser corrigidos e não usados como justificativa para se desfazer de patrimônios públicos responsáveis pelo avanço do desenvolvimento do País. E é mentira dizer que a iniciativa privada é mais ágil, pois ela não chega onde o Estado já não esteja. Ademais, a realidade social brasileira exige que esse tipo de empresa seja pública, como garantia de alguma redução na desigualdade de acesso aos serviços. Além do alto custo e do péssimo atendimento prestado, esse foi um dos motivos para alemães e franceses reestatizarem 500 empresas. Em vários países da Europa, mais de 830 instituições voltaram para as mãos do Estado, pois a sociedade entendeu e se organizou para evitar que o controle de empresas imprescindíveis fique nas mãos da especulação.

Em 2019, a Sanepar teve um lucro de 5,3%. Em maio, a sociedade paranaense rechaçou a tentativa do governo Ratinho de reajustar a tarifa. A população tem condições e a obrigação de dizer um sonoro não às pretensões do governador, de aumentar ainda mais os lucros de entidades que nada têm a ver com as demandas da sociedade por serviços que não podem faltar, nem por um dia, que dirá por mais de 20, como acontece com nossos irmãos do Amapá. Há uma distância muito grande entre eles e onde se encontra o capital da empresa. Sem reação, o governo venderá todo patrimônio paranaense com o qual o estado pode alterar as conjunturas social e econômica. É vital a mobilização, em casa, no trabalho, no lazer, em todos os lugares. Somente assim poderemos garantir que haja democratização de acesso a serviços imprescindíveis para toda a sociedade.